Não
consigo imaginar nada pior na terra do que um homem perder o senso da
presença de Cristo. Observamos esse quadro quando lemos a história de
Salomão, e nos perguntamos como um homem, que fora tão abençoado por
Deus, pôde trocar seu bom nome na história, seu reino e o seu lugar em
Deus pelas paixões incontroláveis e solicitações mundanas.
O
reinado de Salomão começou num esplendor de glória. Ele sucedeu o rei
Davi, seu pai, um homem que tivera um coração segundo o coração de Deus e
que enfrentara perversas perseguições de Saul. E, como aconteceu com
Saul, a vida de Salomão terminou num anticlímax. É curioso como os três
primeiros reis de Israel, Saul, Davi e Salomão, viveram, durante parte
do reinado, sob a sombra da desobediência e da rebelião a Deus. Ambos
beberam a bebida espiritual de Cristo e comeram do Seu alimento. Ambos
nutriram, em algum instante de suas caminhadas, um desejo de erguer um
altar ao Senhor ou de trazer o Amado às suas câmaras. Ambos, sobretudo,
sentiram o mover do Espírito Santo em suas vidas e ouviram a voz de DEUS
dizendo: “levanta-te, amado meu, e vem...”.
Mas
dos três, apenas um conseguiu voltar à sensatez espiritual, pondo um
basta à sensualidade e às concessões dentro do próprio ministério. Esse
foi Davi. Os outros dois, Saul e Salomão, queriam viver o melhor de dois
mundos: de suas cobiças e de Deus. O Amado dizia: “Vem!”, mas seus
corações não eram de todo fiéis ao Senhor.
Quero
mostrar o que acontece ao homem quando este deixa passar o chamamento
de Deus para sua vida. E quero citar o exemplo de Salomão, cuja lição
provoca um temor e um tremor na raiz de nossa espiritualidade. Deus quer
nos dizer algo nessa tragédia. Observe como um homem, chamado por Deus
para uma grande missão, um alto degrau, cai firme às profundezas da
vergonha e da derrota.
Como disse anteriormente, Salomão foi um homem notável e bom. Veja alguns traços importantes desse rei:
1)
cresceu sob a sábia orientação espiritual de Natã, o profeta, que lhe
deu o apelido de Jedidias (“querido de Deus”): “e porque o Senhor o
amou, mandou, por intermédio do profeta Natã, dar-lhe o nome de
Jedidias” (2 Samuel 12:25).
2) A sua presença no reinado encheu de alegria toda a cidade;
3) sua escolha de sabedoria foi uma decisão divina (1 Reis 3);
4)
seu gabinete foi maior que o de qualquer rei de Israel (1 Reis 4); 5)
projetou, investiu e construiu um templo formoso. O culto de inauguração
foi cheio de sublimidade;
6)
A riqueza e a glória do seu reino fizeram com que a rainha de Sabá
ficasse como fora de si: “a comida de sua mesa, o assentar de seus
oficiais, o serviço de seus criados e os trajes deles, seus copeiros, e
os holocaustos que ele oferecia na casa do Senhor, ficou fora de si, e
disse ao rei: foi verdade a palavra que ouvi na minha terra, acerca dos
teus feitos e da tua sabedoria” (1 Reis 10:5-6);
7) sua beleza pessoal é descrita no Salmo 45;
8) compareceu aos banquetes do Senhor;
9) tocou a Rosa de Sarom e viu o Lírio dos Vales;
10) sentiu a mão de Cristo sob sua cabeça.
Salomão
recebeu um chamado muito especial: o de livrar a vinha das raposinhas
que estragavam as videiras. Foi chamado para ser apascentado, nutrido,
aprofundado, um chamado para os pastos verdejantes: “o meu amado é meu, e
eu sou dele. Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios” (Cantares
2.16). Um chamado para uma posição especial: “Volta, meu amado, e
faze-te semelhante ao gamo ou ao filho das gazelas sobre os montes
escabrosos” (2.17).
O
que fez Salomão ao ouvir esse chamado especial de Deus? Abandonou as
pompas, as riquezas, o luxo, o glamour, a vaidade, o egocentrismo? Será
que subiu às montanhas para obedecer ao seu Amado? Havia um grande
problema, uma enorme barreira que o impedia de renunciar a tudo e
atender a Voz do seu Amado: a cobiça. Salomão quanto mais tinha, mais
queria.
Isso
é o que ocorre exatamente hoje, muitos séculos após, com homens que
receberam um chamado especial por parte de Jesus para cuidar bem do Seu
rebanho aqui na terra, e não só cresceram materialmente, em luxo e em
riqueza, mas em cobiça. Estão com olhos fitos na imprensa, no que vão
dizer deles, nas adjetivações e na grandeza egocêntrica que cegam os
olhos e tapam os ouvidos à sublimidade com Jesus.
Mas
de Deus não se zomba. Não importa se o homem foi o mais notável neste
mundo, se foi o mais elogiado, o mais bem sucedido. Deus quer um coração
totalmente fiel. Ele não encontrou essa virtude em Salomão. Por essa
razão, o Espírito Santo se afastou dele e DEUS incitou inimigos para
assediá-lo. Deus, de amigo, tornou-se o seu adversário.
Se
os homens de Deus não se humilham e não abandonam a carne e o mundo,
não deixam de lado a “politicagem religiosa” e voltam a pregar a Cristo
com coerência de vida, Deus utiliza-se de Seu direito de usar satanás
contra eles.
Em
algum lugar, esses homens deixaram escapar algo: ficaram muito
ocupados, famosos, autocentralizados e não puderam ouvir o alto chamado
de DEUS às suas vidas dizendo: “Vem, filho amado!”. Foi lamentável como
Salomão perdeu a visão de Deus. E não é de se admirar que a solidão e o
desespero tenham tomado conta de sua vida. Se nossos adversários agora
nos oprimem, não adianta dizer que o diabo está zangado conosco quando
Deus é que está.
Salomão
foi o homem mais sábio que o mundo já conheceu. Foi um pregador
extraordinário também. Era um construtor por excelência: construiu o
maior templo do mundo, prédios magníficos, tanques, vinhas, jardins.
Construiu para si um palácio maravilhoso, onde projetou um recanto de
verão incomum com as flores do Líbano. Possuía 1.400 carruagens e 12.000
cavaleiros além de grandes proporções de gado, carneiros e cavalos
exóticos. Mas a Palavra de DEUS afirma: “o que aproveita ao homem ganhar
o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca de
sua alma?” (Mateus 16.26). Parece que foi exatamente isso que Salomão
estava vivendo.
O
tempo está passando... Haverá um dia em que os homens não ouvirão mais o
chamado de Deus. Haverá o dia em que estaremos frente a frente com o
Pai, cada um, prestando contas de si. Nesse dia, eu quero estar diante
do Trono de Deus e receber dEle grande galardão por ter obedecido ao Seu
chamado. Não quero ficar diante do Trono com Cristo ouvindo-O dizer “eu
chamei, mas você me recusou”. Que tristeza! Que terrível! Imagine um
homem ser julgado por desleixo, leviandade, apatia ou omissão...
Derramemo-nos,
então, na Sua Santa e Gloriosa presença quando ouvirmos o Seu chamado,
enquanto ainda há luz do sol para abrasar a nossa vida...

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